Vocês se lembram do meu comentário a respeito das minhas turmas na faculdade. A turma de terça-feira era agressiva, difícil, reclamava o tempo todo com o coordenador e mesmo comigo. Já na sexta existia interesse e camaradagem, já haviam me elogiado para o coordenador, marquei uma aula de reposição num sábado e muita gente foi.
Apliquei prova nas duas turmas. A de sexta foi muito, mas muito mal. Um monte de gente entregou as provas em branco, gente que eu esperava que fosse bem teve um desempenho lamentável e deu para sentir que eles estão loucos para colocar a culpa em mim, afinal, errar é humano e culpar o outro pelo erro é mais humano ainda! Confesso que nesse caso, nem sei se tiro a razão deles. A prova foi feita para ser de nível médio, mas eu devo ter errado em alguma suposição inicial. Estou só começando nessa carreira, meu feeling não é suficientemente preciso. Ainda não corrigi as provas, comento baseado no que vi ao passar os olhos pelas folhas enquanto eles entregavam, mas a coisa foi dramática. Será que meu relacionamento com eles vai mudar? Será que vou ter que fazer alguma coisa, como aplicar nova prova, desconsiderar questões, passar um trabalho? Aguardem cenas dos próximos capítulos.
Já a turma de terça estudou muito para a minha prova. Sei disso pois eles fizeram de tudo para que ela fosse a última da semana de provas e por que alguns alunos ligaram no meu celular para tirar dúvidas um dia antes. Adorei isso. Gostei mais ainda quando os vi atacando as três questões da prova, nada ali era completamente desconhecido para eles, como aconteceu com os alunos de sexta. Eles fizeram muitas perguntas ao longo da prova e eu acabei ajudando bastante, pois via que as perguntas eram na direção certa, mostravam algum conhecimento prévio. Ora, estou lá para que eles aprendam, acho muito careta desperdiçar qualquer chance de ensinar, mesmo que seja durante uma prova. Qual é a prioridade afinal? Garantir lisura no processo da prova ou aprendizagem efetiva? Os dois são objetivos de um professor, mas o último tem maior peso. Já na turma de sexta, nem deu para ajudar, eles não sabiam o que perguntar, não tinham nenhuma idéia do que estava ali na frente deles.
Estou muito feliz com a minha turma de terça. Quero dizer isso para eles já na próxima aula, independente das notas. Eles podem até ter ido mal, derrapado aqui e ali nas questões da prova, mas mostraram maturidade ao estudar muito. Para ter uma idéia do que é a tal maturidade de que estou falando, até ameaça de boicote a minha prova sofreu, segundo o coordenador. Acho que pela ajuda que eles tiveram na prova, pelo sentimento de que eram capazes de resolver as questões e pelo discurso que prentendo fazer na próxima aula, vou acabar o semestre como um professor talvez querido, pelo menos respeitado.
E o pessoal de sexta? Para começar, nem sei que discurso adotar. Não sei se chego na sala pagando geral, dizendo a eles que não adianta só ter boas aulas (como as minhas, hehe) e não estudar nada. Que a continuar assim estão todos fritos e que eu estou muito decepcionado, afinal eles eram a minha melhor turma! Outra alternativa é bancar o good cop e dizer que eu sinto muito pelo resultado, que eu não esperava que a minha prova fosse tão difícil nem que eles estivessem tão despreparados, mas que juntos nós vamos dar a volta por cima, afinal eles são uma turma muito querida e tal. Tudo isso vou discutir com o meu coordenador depois de ter corrigido todas as provas, o que espero fazer esta noite.
Incrível como uma prova pode mudar completamente o cenário da relação professor-aluno. Deve ser a relação mais delicada entre todas as relações humanas. Pelo menos das que vivi até hoje: namorado-namorada, filho-mãe, filho-pai, marido-mulher, amigo-amigo(a), empregado-chefe, mestrando-orientador...
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
terça-feira, 2 de outubro de 2007
Soja
Quando ainda repetia slogans de esquerda em qualquer discussão, gostava de falar do absurdo que era o latifúndio, produzindo soja para alimentar o gado americano no inverno. Dizia que o negócio é a agricultura familiar, que produz os alimentos de verdade, já que eu não como soja!
Se não fosse a soja e a indústria de alimentos (multinacional), meu filho não teria leite, iogurte, vitaminas. Tudo com leite de soja e à venda nas melhores lojas do ramo.
E gado não alimenta gente? Americano não é gente? Será que a carne que eu como veio de um lote de reforma agrária ou de uma grande fazenda? Aposto todas as fichas na última.
Se não fosse a soja e a indústria de alimentos (multinacional), meu filho não teria leite, iogurte, vitaminas. Tudo com leite de soja e à venda nas melhores lojas do ramo.
E gado não alimenta gente? Americano não é gente? Será que a carne que eu como veio de um lote de reforma agrária ou de uma grande fazenda? Aposto todas as fichas na última.
Mamíferos
Parece que somos a única espécie de mamífero que segue bebendo leite, dos outros, para o resto da vida. Já ouvi o relato, de segunda mão, de pediatras que dizem às mães que "leite de vaca é para bezerro". Pouca coisa pode ser tão estúpida!
Meu filho desenvolveu intolerância à lactose. Estamos contornando com o leite de soja, mas não é o bastante. Tente tirar completamente o leite da sua dieta e você vai ter alguma idéia do que estamos passando! Quase toda receita um pouco mais elaborada tem leite. Neston batido com suco de frutas tem leite (olha o rótulo, tá escrito lá: contém traços de leite). Uma papinha de estrogonofe de frango tem leite. Bolacha, chocolate, bolo: leite, leite, leite.
Se um dia o pediatra do seu filho vier com essa conversa mole, saiba que é só para você achar que está tudo bem com seu filho, errados são os outros que insistem com esse hábito anti-natural. Ele tenta fazer você aceitar o trabalhão que vai ter e ainda se sentir orgulhoso pelas escolhas certas. Pode ser com a melhor das intenções, mas é bem desonesto. Será que o dr. não toma leite nenhum? Ou ainda é um bezerro?
Meu filho desenvolveu intolerância à lactose. Estamos contornando com o leite de soja, mas não é o bastante. Tente tirar completamente o leite da sua dieta e você vai ter alguma idéia do que estamos passando! Quase toda receita um pouco mais elaborada tem leite. Neston batido com suco de frutas tem leite (olha o rótulo, tá escrito lá: contém traços de leite). Uma papinha de estrogonofe de frango tem leite. Bolacha, chocolate, bolo: leite, leite, leite.
Se um dia o pediatra do seu filho vier com essa conversa mole, saiba que é só para você achar que está tudo bem com seu filho, errados são os outros que insistem com esse hábito anti-natural. Ele tenta fazer você aceitar o trabalhão que vai ter e ainda se sentir orgulhoso pelas escolhas certas. Pode ser com a melhor das intenções, mas é bem desonesto. Será que o dr. não toma leite nenhum? Ou ainda é um bezerro?
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
Tio Rei
Aliás, o blog do Reinaldo Azevedo desta semana está fantástico. Aqui ele faz uma piada rápida e mortal. Já neste outro me fez sentir inveja de um tempo em que se estudava Os Lusíadas com atenção e rigor. Parece que meus ideais estão cada vez mais conflitantes com meu tempo. Você também tem a sensação de estar na década errada?
Serendipity
Faz tempo que estou tentando me lembrar de uma canção para ninar meu filho. No quarto dele tem uma imagem bonita de São Francisco rodeado de pássaros e com sua túnica marrom. A música é do disco "Arca de Noé" e também embalou os meus sonos. Mas só me lembrava da primeira estrofe.
Estou há semanas pensando em entrar no Google para procurar a letra, mas na correria dos dias acabo me esquecendo. Hoje topei com ela em um post do Reinaldo Azevedo.
Quase chorei! É o que os americanos (será que também os ingleses?) chamam de serendipity. É difícil traduzir...Tenho que investir o mais rápido possível em bons dicionários: inglês, português e inglês-português. Vai uma boa grana aí! Em tradução bem livre, totalmente no espírito deste leitor de orelhas, o termo indica uma coincidência, não uma mera coincidência, mas aquelas em que o fato ocorrido ao acaso e o momento em que ocorre são uma combinação perfeita, para o bem. Ao menos é assim que eu sempre entendi, parece que lá na Wikipedia não é bem assim. Fico com a minha versão, bem mais poética. Agora me ocorre o quanto é estranho adjetivar qualquer coincidência como "mera"... Como o evento é extraordinário, parece um paradoxo, né?
Segue a poesia, lindíssima, do Vinícius de Moraes. Se bem me lembro, era cantada pelo Ney Matogrosso acompanhado de um grupo de crianças.
São Francisco
Lá vai São Francisco
Pelo caminho
De pé descalço
Tão pobrezinho
Dormindo à noite
Junto ao moinho
Bebendo a água
Do ribeirinho.
Lá vai São Francisco
De pé no chão
Levando nada
No seu surrão
Dizendo ao vento
Bom-dia, amigo
Dizendo ao fogo
Saúde, irmão.
Lá vai São Francisco
Pelo caminho
Levando ao colo
Jesuscristinho
Fazendo festa
No menininho
Contando histórias
Pros passarinhos.
Estou há semanas pensando em entrar no Google para procurar a letra, mas na correria dos dias acabo me esquecendo. Hoje topei com ela em um post do Reinaldo Azevedo.
Quase chorei! É o que os americanos (será que também os ingleses?) chamam de serendipity. É difícil traduzir...Tenho que investir o mais rápido possível em bons dicionários: inglês, português e inglês-português. Vai uma boa grana aí! Em tradução bem livre, totalmente no espírito deste leitor de orelhas, o termo indica uma coincidência, não uma mera coincidência, mas aquelas em que o fato ocorrido ao acaso e o momento em que ocorre são uma combinação perfeita, para o bem. Ao menos é assim que eu sempre entendi, parece que lá na Wikipedia não é bem assim. Fico com a minha versão, bem mais poética. Agora me ocorre o quanto é estranho adjetivar qualquer coincidência como "mera"... Como o evento é extraordinário, parece um paradoxo, né?
Segue a poesia, lindíssima, do Vinícius de Moraes. Se bem me lembro, era cantada pelo Ney Matogrosso acompanhado de um grupo de crianças.
São Francisco
Lá vai São Francisco
Pelo caminho
De pé descalço
Tão pobrezinho
Dormindo à noite
Junto ao moinho
Bebendo a água
Do ribeirinho.
Lá vai São Francisco
De pé no chão
Levando nada
No seu surrão
Dizendo ao vento
Bom-dia, amigo
Dizendo ao fogo
Saúde, irmão.
Lá vai São Francisco
Pelo caminho
Levando ao colo
Jesuscristinho
Fazendo festa
No menininho
Contando histórias
Pros passarinhos.
sexta-feira, 31 de agosto de 2007
T.G.I. Friday
É engraçado como a minha experiência de professor tem sido uma montanha russa emocional.
Quando dou aula para a turma de terça, fico desiludido como atestam os dois posts abaixo. Aí chega a sexta-feira e a coisa muda completamente. É uma turma interessada, simpática, já até me elogiaram para o coordenador. Não são alunos mais fortes que os de terça e isso fica claro pelo meu plano de aula, que está atrasado. Parece que a principal diferença em relação a outra turma é de motivação, ânimo.
Logo que o coordenador me passou a turma de terça ele disse para eu tomar muito cuidado com o que eu dissesse, pois tudo SERIA usado contra mim. Não estava dizendo que algo PODERIA ser usado contra mim, mas que eles iriam reclamar de qualquer jeito. Eles já fizeram protesto para tirar professores e são muito brigões. Acho que isso se reflete na aprendizagem, pois eles tem uma ansiedade muito grande. Estou ensinando coisas básicas, um pouco abstratas no início mas que vão fazer sentido prático lá na frente. Eles ficam falando que não entendem nada, que não sabem onde aplicar aqueles conceitos...Ora, em certos momentos é preciso saber esperar um pouco, nem tudo faz sentido imediatamente. Primeiro temos que aprender os conceitos básicos para só então aplicá-los.
Não é o que acontece sexta-feira. Nesta classe os alunos não tem nenhuma reserva, não ficam me avaliando 100% do tempo, nem esperam entender tudo instantaneamente. Eles parecem entender melhor que o processo de aprendizagem depende muito do professor, mas ele só participa do início. Os próximos passos incluem o aluno, que vai fazer exercícios, rever a matéria e tirar dúvidas. Tudo a seu tempo.
Eu não culpo só os alunos da terça-feira. Talvez seus professores tenham sido mesmo ruins e a culpa seja toda da instituição. Mas o fato é que, independente dos motivos, os alunos estão com o foco errado, esperando tudo do professor que está longe de ser perfeito ou mágico. Isso os deixa pessimistas e muito ansiosos.
Parece que todos ali -- eu incluído, por que não -- têm um problema que não é de engenharia ou mesmo de pedagogia. O problema é psicológico.
Quando dou aula para a turma de terça, fico desiludido como atestam os dois posts abaixo. Aí chega a sexta-feira e a coisa muda completamente. É uma turma interessada, simpática, já até me elogiaram para o coordenador. Não são alunos mais fortes que os de terça e isso fica claro pelo meu plano de aula, que está atrasado. Parece que a principal diferença em relação a outra turma é de motivação, ânimo.
Logo que o coordenador me passou a turma de terça ele disse para eu tomar muito cuidado com o que eu dissesse, pois tudo SERIA usado contra mim. Não estava dizendo que algo PODERIA ser usado contra mim, mas que eles iriam reclamar de qualquer jeito. Eles já fizeram protesto para tirar professores e são muito brigões. Acho que isso se reflete na aprendizagem, pois eles tem uma ansiedade muito grande. Estou ensinando coisas básicas, um pouco abstratas no início mas que vão fazer sentido prático lá na frente. Eles ficam falando que não entendem nada, que não sabem onde aplicar aqueles conceitos...Ora, em certos momentos é preciso saber esperar um pouco, nem tudo faz sentido imediatamente. Primeiro temos que aprender os conceitos básicos para só então aplicá-los.
Não é o que acontece sexta-feira. Nesta classe os alunos não tem nenhuma reserva, não ficam me avaliando 100% do tempo, nem esperam entender tudo instantaneamente. Eles parecem entender melhor que o processo de aprendizagem depende muito do professor, mas ele só participa do início. Os próximos passos incluem o aluno, que vai fazer exercícios, rever a matéria e tirar dúvidas. Tudo a seu tempo.
Eu não culpo só os alunos da terça-feira. Talvez seus professores tenham sido mesmo ruins e a culpa seja toda da instituição. Mas o fato é que, independente dos motivos, os alunos estão com o foco errado, esperando tudo do professor que está longe de ser perfeito ou mágico. Isso os deixa pessimistas e muito ansiosos.
Parece que todos ali -- eu incluído, por que não -- têm um problema que não é de engenharia ou mesmo de pedagogia. O problema é psicológico.
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Exagerado
O meu prezado leitor pode estranhar o post abaixo: "o cara não deu nem um mês de aula, sequer recebeu salário e já está decepcionado com seu desempenho?"
Bem, há uma história contada pela minha mãe sobre a minha infância que talvez ajude você a entender o quanto sou exigente comigo mesmo.
Antes da primeira série eu já estava dando os meus primeiros passos na alfabetização. A professora preparava cadernos de caligrafia para a gente treinar e os meus tinham as folhas todas amareladas. Era por conta das minhas lágrimas por não ter ainda uma letra perfeita como a da professora. Isso com 6 anos de idade!
Acho que deu para sentir o drama, né?
Bem, há uma história contada pela minha mãe sobre a minha infância que talvez ajude você a entender o quanto sou exigente comigo mesmo.
Antes da primeira série eu já estava dando os meus primeiros passos na alfabetização. A professora preparava cadernos de caligrafia para a gente treinar e os meus tinham as folhas todas amareladas. Era por conta das minhas lágrimas por não ter ainda uma letra perfeita como a da professora. Isso com 6 anos de idade!
Acho que deu para sentir o drama, né?
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